20/8-/1-22 10h26
Animais do Le Cirque são transferidos mais uma vez
Os animais apreendidos no Le Cirque e abrigados no Zoológico de Brasília estão sendo agora redistribuídos para outros viveiros. E todos particulares. Os bichos do circo, entre eles elefantes e girafas, foram alvos da fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Distrito Federal há três meses. Depois de uma guerra judicial, o Ibama conseguiu recuperá-los quando já tinham ido para outras regiões. Na época, foi montada uma grande operação de resgate para trazê-los de Mato Grosso do Sul de volta à capital federal.
A história parecia resolvida quando as espécies foram finalmente
acomodadas no Zoológico de Brasília. Mas, agora, o caso volta a
provocar polêmica com acusações de irregularidades na destinação dos
bichos e novas denúncias contra o circo. Os animais estão sendo levados
para locais privados que tiram proveito financeiro, como um
hotel-fazenda em Santa Catarina. Por outro lado, os empresários do Le
Cirque são investigados pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro e
trabalho escravo.
Os animais não poderiam ser transferidos do
Zôo sem autorização da Justiça Federal. Segundo decisão do juiz federal
de Mato Grosso do Sul Renato Toniasso, em 21 de agosto, “os animais
ficarão hospedados no Zoológico de Brasília, sob a responsabilidade do
Ibama, e não poderão ser removidos sem autorização deste Juízo, uma vez
que, conforme já dito, estão vinculados a este processo.”
No
entanto, a procuradoria do Ibama conseguiu decisão da Terceira Vara
Criminal no Distrito Federal autorizando a remoção de quatro elefantes
asiáticos. Três vão para o Cattoni Park Hotel Salete, em Santa
Catarina, e um para o Zooparque Itatiba, no estado de São Paulo. Dois
já foram transferidos há 10 dias, sem alarde, em carretas durante a
madrugada, para não chamar a atenção dos advogados do Le Cirque. O
Ibama confirmou ao Correio que os outros dois elefantes serão removidos
nos próximos dias, mas não divulgou a data exata para evitar confronto
com os representantes do circo. Depois dos elefantes, serão as girafas.
Os
animais apreendidos (veja arte) correspondem a um patrimônio de R$ 6
milhões, do qual o Le Cirque não pretende abrir mão. O circo contratou
experientes escritórios de advocacia em Brasília e outros estados para
recuperar os animais ou, pelo menos, receber indenização pelos danos. O
circo, no entanto, é acusado pelo Ibama de crime ambiental por
maus-tratos aos animais. Um dos sócios chegou a ter prisão preventiva
decretada, que acabou revogada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Entre
as espécies apreendidas, algumas correm risco de extinção, como o
rinoceronte branco, que vale pelo menos US$ 350 mil (cerca de R$ 830
mil). Ele veio de um circo da Itália, há 15 anos. Como hoje está
proibida a importação de animais exóticos, o rinoceronte vale ainda
mais em exposições ao público. E será ele que ocupará agora o recinto
quando os elefantes deixarem o Zôo brasiliense. “Ele ficará bem melhor
acomodado, precisa de mais espaço”, afirma o coordenador de
Fiscalização de Fauna do Ibama nacional, Antônio Gamme.
A
justificativa para a transferência dos elefantes foi “o comportamento
agressivo” que passaram a apresentar no Zoológico de Brasília. Segundo
consta em documentos do Ibama e do próprio Zôo, os animais começaram a
se bater contra o muro e se agredir mutuamente. E que isso começou,
“coincidência ou não”, depois de uma visita de um do donos do Le Cirque
ao local.
Difícil adaptação
Documento do Ibama de 7
de novembro, a que o Correio teve acesso, alerta que “os recintos do
Zôo de Brasília foram adaptados para receber provisoriamente os animais
e que, apesar de serem mais adequados do que os do Le Cirque, não são
ideais para garantir o bem-estar e a segurança dos animais. No texto,
pede-se “a transferência urgente” dos bichos. Funcionários do
Zoológico, que pediram para não ser identificados, informaram ao
Correio que os elefantes representavam perigo e dificuldade de
adaptação desde o dia em que chegaram.
O Ibama explica que há
pouquíssimos locais com condições de abrigar animais do porte de
elefantes. A fiscalização chegou a negar que os bichos estavam sendo
transferidos para despistar os advogados do Le Cirque. “Os advogados do
circo tentam sabotar as nossas operações, coagiram testemunhas. Negamos
que estávamos transferindo os animais, num primeiro momento, para
garantir a segurança deles. Faremos escolta se preciso e não queremos
abater ninguém a tiros no meio do caminho”, diz Antônio Gamme.
“Por
que os animais não foram transferidos para outros zoológicos públicos?
Que critério se baseou um servidor do Ibama para direcionar os
elefantes para este determinado local e sem publicidade? É no mínimo
suspeito. E só a Justiça Federal teria competência para autorizar a
remoção”, observa o advogado do Le Cirque, Valter Xavier. Foi pedido
exame de DNA para a devida identificação dos animais na hora da
transferência, o que não foi realizado. “E se aparecer apenas a carcaça
e disserem depois que é de um dos elefantes? Como teremos certeza?”,
questiona o advogado.
O Ibama explicou que não há zoológicos
públicos em condições para abrigar os elefantes. “Ninguém está vendendo
animal. Nosso critério não é se o lugar é público ou privado. É se tem
condições técnicas de garantir o bem-estar aos bichos”, afirma Gamme.
O
diretor do Zoológico de Brasília, Raul Gonzalez, garante que está
apenas cumprindo as decisões do Ibama e da Justiça. “Concordo que os
elefantes ficarão melhor alojados nesses outros locais. No caso do
rinoceronte, estamos dispostos a realizar as adequações necessárias
para que ele permaneça aqui conosco.”
Fonte: Correio Braziliesne
Matéria em: http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_13/2008/11/21/noticia_interna,id_sessao=13&id_noticia=50607/noticia_interna.shtml