20/8-/7-06 11h55
Porto Alegre proíbe animais de tração
Numa das sessões mais conturbadas dos últimos anos, a Câmara de Vereadores aprovou, no dia 16 de junho, o fim do trânsito de carroças pelas ruas da Capital, no prazo de oito anos. Também serão proibidos os carrinheiros, aqueles que tracionam veículos com os próprios braços.
Galerias da Câmara de Vereadores de Porto Alegre foram tomadas por carroceiros (acima) e por defensores de animais Em meio a tumulto, vereadores aprovaram extinção dos veículos até 2016
Houve xingamentos, ameaças e até uma briga entre duas mulheres.
Numa das sessões mais conturbadas dos últimos anos, a Câmara de Vereadores aprovou, ontem, o fim do trânsito de carroças pelas ruas da Capital, no prazo de oito anos. Também serão proibidos os carrinheiros, aqueles que tracionam veículos com os próprios braços.
O projeto do presidente da Câmara, Sebastião Melo (PMDB), foi aprovado por 22 votos contra 12, para vibração dos defensores dos animais, que denunciavam maus-tratos contra os cavalos. Uma emenda de Beto Moesch (PP) e de Haroldo de Souza (PMDB) estendeu a proibição aos carrinheiros. Foi para prevenir que carroceiros se transformassem em carrinheiros, o que continuaria afetando o trânsito da Capital.
A eliminação dos veículos de tração animal e humana ocorrerá aos poucos, até 2016. Pelo projeto, a prefeitura deverá garantir alternativas de renda às famílias dos carroceiros. A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) calcula que 30 mil pessoas dependam da coleta de lixo reciclável por meio de veículos de tração.
A Câmara reforçou a segurança, inclusive chamando guardas municipais e policiais militares, mas os tumultos ocorreram. Lotando uma das galerias, os representantes dos carroceiros vaiavam e insultavam os vereadores favoráveis ao fim dos veículos de tração. Único do PT a apoiar o projeto, Adeli Sell foi ameaçado e chamado de "adelixo".
Na outra galeria, concentravam-se os defensores dos animais. A professora Ana Flores, a ex-comissária de vôo da Varig Cleide Zanini e o artesão Renato Braz Silva estampavam fotos de cavalos mutilados, agonizando na rua.
Carroceiros adiantam que não cumprirão lei
No final da sessão, os ânimos se exacerbaram, com provocações e gestos obscenos. Num descuido dos seguranças, uma moça da ala dos carroceiros avançou contra uma defensora dos animais. As duas se engalfinharam pelos cabelos. Uma senhora tentou chutar um guarda e um cinegrafista, gritando que os vereadores estavam tirando o ganha-pão dos recicladores.
Vereadores contrários ao projeto tentaram contemplar os carroceiros. Duas emendas previam que as carroças só poderiam ser retiradas das ruas depois que a prefeitura criasse programas de renda e assistência às famílias. Ambas foram rejeitadas.
Os carroceiros ficaram inconformados com o resultado. Mulheres choravam, crianças gritavam. O presidente da Associação dos Carroceiros de Porto Alegre (Ascapoa), Teófilo Rodrigues Motta Júnior, desabafou:
- Isso é uma vergonha. Estão alimentando a máfia do lixo contra a classe pobre. Vamos continuar nas ruas e nos organizar ainda mais.
O projeto se tornará lei se for sancionado pelo prefeito José Fogaça. Ontem à noite, a assessoria informou que ele analisará o projeto, em função das emendas apresentadas.
Como ficará
O que ocorrerá se o prefeito José Fogaça sancionar o projeto:
- As carroças deverão sumir da Capital, no prazo de oito anos
- Os carrinheiros serão proibidos de circular pela cidade
- Em troca, as famílias de carroceiros e carrinheiros deverão receber outra alternativa de renda
Por que os vereadores aprovaram o fim das carroças:
- Para não atrapalhar o trânsito nas ruas
- Para evitar maus-tratos aos cavalos
Por que os carroceiros não querem abandonar profissão:
- Asseguram que ganham entre R$ 800 e R$ 900 por mês. Nos galpões de reciclagem, a renda cai pela metade
- Não confiam em promessas de políticos
- Garantem que apenas uns poucos não cuidam dos seus cavalos
Fonte: Jornal Zero Hora